Dois grandes nomes da Cultura Brasileira.
Cleberton Santos (14/05/1979, Propriá/SE) é poeta e professor do IFBA campus Santo Amaro. Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. Publicou os livros “Ópera urbana” (2000), “Lucidez silenciosa” ( 2005) “Cantares de roda” (2011), “Aromas de fêmea” (2013), "Estante Viva” (2013 ) e "Travessia de abismos" (2015). Vencedor do Prêmio Escritor Universitário Alceu Amoroso Lima da Academia Brasileira de Letras (2002). Este blog é dedicado à divulgação da Literatura e outras Artes.
segunda-feira, 24 de abril de 2017
domingo, 23 de abril de 2017
Poética na incorporação: livro de Igor Fagundes
ODISSEIA
DA LINGUAGEM
Poeta,
ensaísta, crítico literário, ator e professor de Filosofia, Estética e Dança no
Departamento de Arte Corporal da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Igor
Fagundes digere as bases de formação do pensamento ocidental e oferece em seu
oitavo livro (o quarto de ensaio), Poética na incorporação, uma
odisseia da linguagem. Seduzindo-se pelo canto das sereias e das musas,
restitui-se como espaço privilegiado do exercício do humano, da experimentação
e da resistência. Para tanto, evoca as gestualidades vocais de Maria Bethânia e
a poesia escrita de José Inácio Vieira de Melo, deitando-as na encruzilhada de
Exu, orixá mensageiro das travessias, e assim promove a desconstrução de
estereótipos promotores de discriminação e preconceito.
Fruto
de tese de doutorado em Poética pela UFRJ, o livro revela um escritor avesso ao
lugar-comum a que o conceito oswaldiano de antropofagia acabou se reduzindo, e
que faz da escrita, com seu formato ensaístico, um libelo ao pensamento. Em
Igor Fagundes, a escrita pensa: desdobra-se para dentro e para fora de si,
investigando-se. Só por isso já merece leitura e atenção. Mas vai além. Cruza
mitos africanos, bíblicos e gregos para remexer nossa ontologia cultural,
problematizando, por exemplo, recentes ideias de autoficção ou escritas de si.
E também restaura a questão sobre o que é ser brasileiro e sobre o que
significa pensar e escrever num Brasil “expatriado”, “ainda e sempre na
promessa de um descobrimento”. País que “há de ser o mistério de cada voz no
silêncio e pelo silêncio transatlântico de todo lugar”.
Em
suas especificidades e “dentro de um só mocó”, Exu, Cristo e Hermes incorporam
no palco e terreiro deste Ulisses brasileiro e pirata que Igor Fagundes se
torna, colocando “Ítaca bem no meio da gira” e atravessando o mar da sofia. Mar
que também é sertão (pois, mencionando Guimarães Rosa, “o sertão está em toda
parte, é dentro da gente”). Fagundes leva o sertão para dentro do texto,
“sempre na volta adiável”, com eternos retornos, torneios da linguagem. Daí que
testa o uso das palavras, rascunha e dobra os sentidos ao escrever, deixando
sempre o rastro da escrita, da incerteza.
Se a
poesia de José Inácio tem como referência os cordelistas e o aboio; se a voz de
(sua musa) Maria Bethânia — “cantora encruzilhada” — guarda o canto das
sereias, Igor Fagundes imprime em seu texto a marca do popular, do artesanal,
do mítico. E o faz sintonizado, ainda que não cite, com um dos mais enigmáticos
aforismos de Oswald de Andrade: “Só podemos atender ao mundo orecular”.
Amalgamando “auricular” (de ouvido) e “oracular” (de oráculo), investe no
sentido da audição, na escuta como acesso ao conhecimento, descarregando o divino
na histórica objetivação capitalista.
A
demanda pela voz atravessa todo o livro e é sua potência. Para além do registro
escritural, a voz poética desconstrói verdades e quebra hábitos de leitura. O
projeto ocidental de emudecimento do poético e, por sua vez, de ensurdecimento
do ouvinte-leitor é radicalmente atacado. Entre silêncios e vazios, o leitor é
chamado a tomar posição e a pensar com o corpo todo sobre o já dado, o já
estabelecido na cultura dos conceitos, no fetiche da ciência que despreza as religiões:
“no arcaico, sábio é o poeta, o bardo, o cantor, o incorporado”. Tomado “pelo
princípio enquanto princípio, pelo milagre do agora abissal”, Igor Fagundes
emula Maria Bethânia e José Inácio direcionando o leitor para um grau zero da
escrita, para uma fronteira onde o escrito por si só não basta. Considerando
que a musa é a fonte de uma mensagem enviada apenas ao poeta e a sereia, a
portadora do canto audível aos ouvidos humanos, em Poética na
incorporação a linguagem é musa e a escrita é sereia que seduz e
engendra o desconforto do leitor.
Labiríntico
e distante das simplificações dos manuais que criam dicotomias preguiçosas para
apressados, o livro orienta antigo e moderno, tradição e traição, a fim de
sustentar a hesitação geradora do pensar. Na invenção do humano, cantando o
ciclo da origem, do ser se dando na linguagem, as disputas pelas heranças
patriarcais são substituídas pela generosidade erótica dos contatos. Em estado
de poesia, vendo o mundo “pelos olhos da esfinge”, sendo o enigma, não o decifrador,
Igor Fagundes reafirma a literatura como saber: da linguagem e de um ser humano
retirante, itinerante, nômade.
Resenha publicada no Jornal Rascunho
Para adquirir mais livros de Igor Fagundes:
quinta-feira, 20 de abril de 2017
Damário Dacruz: oficina do Projeto OXE
Certo voo
Cada
pássaro
sabe
a rota
do retorno.
Cada
pássaro
sabe
a rota
de si.
Cada
pássaro,
na rota,
sabe-se
pássaro.
Damário Dacruz
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Manuel Bandeira: imagem, poesia e vida.
Um poeta que leio sempre. Poemas para todos os dias. Meu querido poeta pernambucano Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira.
quinta-feira, 6 de abril de 2017
"O Alienista" de Machado de Assis
Para meus queridos alunos do IFBA campus Santo Amaro. Para todos os amantes da nossa boa Literatura Brasileira. O Mestre Machado de Assis.
terça-feira, 4 de abril de 2017
Poema de Narlan Matos
CALENDÁRIO
é
preciso esquecer de março
para que abril finalmente aconteça
deitar-se sob a sombra de janeiro
para que o abismo de junho desapareça
para que abril finalmente aconteça
deitar-se sob a sombra de janeiro
para que o abismo de junho desapareça
de
quem é esta face por detrás da hera?
ao longe o luar etéreo repousa leve e branco
ao longe o luar etéreo repousa leve e branco
sobre lírios de absinto e quimera
resta
ainda a relva de setembro
e azaleias da tarde
e azaleias da tarde
e as latitudes do silêncio
não
é a morte que eu busco, amiga
quando chegam tuas palavras na brisa
quando chegam tuas palavras na brisa
quando oferece-me o frescor de tua tez
e a Via-Láctea de repente renasce
calma nas rosas silvestres do prado
ou quando abres as imensas pétalas
do teu sorriso lindo e branco (um lírio?)
para a noite da minha existência
e a Via-Láctea de repente renasce
calma nas rosas silvestres do prado
ou quando abres as imensas pétalas
do teu sorriso lindo e branco (um lírio?)
para a noite da minha existência
CALENDARIO
bisogna
dimenticare marzo
perché finalmente arrivi aprile
sdraiarsi all’ombra di gennaio
perché l’abisso di giugno scompaia
perché finalmente arrivi aprile
sdraiarsi all’ombra di gennaio
perché l’abisso di giugno scompaia
di
chi è questa faccia dietro l’edera?
lontano il chiar di luna riposa lieve e bianco
sopra gigli di assenzio e chimera
lontano il chiar di luna riposa lieve e bianco
sopra gigli di assenzio e chimera
resta
ancora l’erba di settembre
e azalee del pomeriggio
e le latitudini del silenzio
e azalee del pomeriggio
e le latitudini del silenzio
non
è la morte che cerco, amica
quando giungono le tue parole nella brezza
quando mi offri la frescura della tua pelle
e la Via Lattea all’improvviso rinasce
calma nelle rose silvestri del prato
o quando apri i petali immensi
del tuo sorriso bello e bianco (un giglio?)
per la notte della mia esistenza
quando giungono le tue parole nella brezza
quando mi offri la frescura della tua pelle
e la Via Lattea all’improvviso rinasce
calma nelle rose silvestri del prato
o quando apri i petali immensi
del tuo sorriso bello e bianco (un giglio?)
per la notte della mia esistenza
Narlan Matos - poeta brasileiro com vários livros publicados. Vive nos Estados Unidos e sua poesia já foi traduzida para vários idiomas.
Tradutor: Giorgio Mobili
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Poema de Roberval Pereyr
Amálgama
O exercício da mentira
assevera-nos o rosto;
petrifica-nos o busto
e engrandece-nos a ira.
O exercício da mentira
engrandece-nos as posses;
ajoelha-nos em preces
sob o teto das igrejas.
O exercício da mentira
faz-nos fortes barulhentos;
tece grandes pensamentos
para encher-nos de amarguras.
O exercício da mentira
faz-nos lúcidos, divinos;
torna os animais humanos
e torna os deuses caninos.
O exercício da mentira
(por que tamanha maldade?)
concedeu-nos - que loucura! -
o exercício da verdade.
O exercício da mentira
assevera-nos o rosto;
petrifica-nos o busto
e engrandece-nos a ira.
O exercício da mentira
engrandece-nos as posses;
ajoelha-nos em preces
sob o teto das igrejas.
O exercício da mentira
faz-nos fortes barulhentos;
tece grandes pensamentos
para encher-nos de amarguras.
O exercício da mentira
faz-nos lúcidos, divinos;
torna os animais humanos
e torna os deuses caninos.
O exercício da mentira
(por que tamanha maldade?)
concedeu-nos - que loucura! -
o exercício da verdade.
Roberval Pereyr
Nasceu em Antônio Cardoso (Bahia, 1953). Vive em Feira de Santana. É
poeta, ensaísta e professor na UEFS. Publicou os livros de poesia: Iniciação ao estudo do um (com Antônio
Brasileiro, em 1973); Cantos de sagitário,
(1976); As roupas do nu (Coleção dos
Novos, em 1981); Ocidentais (1987) e O súbito cenário (1996). Publicou nas
revistas: Tapume, Hera e Serial. Vencedor do Prêmio da Academia de Letras da Bahia 2010.
domingo, 2 de abril de 2017
Meu poema "dedos"
![]() |
Fotografia by Ricardo Prado Sarau na Fazenda Pedra Só 2016 |
dedos
algum dia serei mais que poesia
recitada pelos
bares
ruas
praças
serei traça corroendo os mapas
da vida
com seus destinos traçados pelo vento
esse deus estrangulado pelos meus dedos
Cleberton Santos
Do livro "Travessia de abismos" (Editora Via Litterarum, 2015)
sábado, 1 de abril de 2017
A poesia de Helena Parente Cunha
Helena Parente Cunha (Salvador, BA, 1930). Ensaísta, poeta,
contista, romancista, professora e tradutora. Em 1949, ingressa no curso de
graduação em letras neolatinas da Universidade Federal da Bahia - UFBA, que
conclui em 1952. Dois anos depois, ganha bolsa de estudo da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior - Capes para se especializar em
língua, literatura e cultura italiana em Perúgia, Itália, na Università
Italiana Per Stranieri. Começa a trabalhar como tradutora em 1956, com o livro A Educação da Criança Difícil, do psicólogo italiano Dino Origlia. Muda-se para o Rio de
Janeiro em 1958, e, dez anos depois, publica seu primeiro livro de poemas, Corpo no Cerco. Segue carreira acadêmica na área de letras: mestrado na
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, de 1969 a 1972; doutorado na
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, entre 1974 e 1976;
livre-docência, em 1976; e pós-doutorado novamente na UFRJ, de 1992 a 1994.
Estuda na Università Degli Studi Di Firenze, na Itália, em 1978. Começa a
trabalhar como professora adjunta na UFRJ no ano seguinte e torna-se titular em
1984. Ainda em 1979, publica seu primeiro livro de ensaios, Jeremias, a Palavra Poética: Uma Leitura de
Cassiano Ricardo. O primeiro livro de contos, Os Provisórios, é publicado em 1980. Desenvolve desde o fim dos anos 1980
pesquisa sobre a representação feminina na literatura e a produção de
escritoras brasileiras do século XIX ao início do XXI.
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