domingo, 17 de setembro de 2017

EPIFANIA


Epifania
Para Antonio Brasileiro

Um Buda sentado
sobre meus ombros
medita a leveza da morte.

Vestindo roupas trançadas de pedras
um Buda leve caminha sobre as águas
dos meus pensamentos.

Sobre meus ombros
um Buda escreve
poemas esconsos.

In: Lucidez Silenciosa (2005)

sábado, 16 de setembro de 2017

TRÊS POEMAS DE JECILMA LIMA

Jorge Galeano / http://jorgegaleano.blogspot.com.br


Gostaria de ser rio

Eis o meu alento e meu segredo
Ser a ponte sobre o rio
Ser a pedra e o chapéu que esbarra nela.
Decifrável alegoria
que traz ao coração dos homens
lembrança de pulmões cheios d’água
e olhares elevados de suicidas.

Estamos todos tão distantes...

A água já nos chega aos joelhos
E nós nem nos abraçamos.
Nos abracemos, amiga
antes que, incapazes do gesto
nos tornemos de um sorriso marmóreo,
repleto desta cegueira incurável.

Gostaria de ser rio
Mas sou irrecuperável.


Entre vista


Quanto às coisas que em mim ardem,
É tudo que me toca mais fundo.

Quanto a tudo no mundo que me encanta
Ou comove,
              Ou destrói
É essa dor de mil anos
Este estar só, no centro.

E quanto a estranheza mesmo da morte
É a sua atração que me move.


Enquanto espero

Brinco de compor estrelas
Estou naqueles dias
Em que não consigo ser para mim apenas
E escapo ao controle.

Afogo um mundo em pequenas dores
E me desconheço
Grandiloquente e tola.

Estou naqueles dias
E, enquanto espero
Espalho astros pela janela.


JECILMA LIMA é feirense, poeta, contista e pesquisadora de literatura e cultura. Participou da coletânea de poesia “SETE FACES”, publicada pela UEFS, e foi vencedora do I concurso Literário Bahia de todas as Letras, da editora Via Litterarum, na categoria conto, com “Um coração de coelho”. É professora do IFBA – Campus Santo Amaro, onde coordena o Núcleo de Arte e Cultura.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Memórias da Flipelô 2017



09/08/2017 / FLIPELÔ

Estive na Flipelô 2017. Fui convidado pelo curador José Inácio Vieira de Melo para recitar meus poemas no Café Teatro Zélia Gattai ao lado dos poetas Igor Fagundes (RJ) e Walter César (BA). Tudo seria exatamente igual a tantos outros eventos literários que já fui se não fosse por este inesquecível episódio. Estive ao lado de Maria Bethânia. Falei com Maria Bethânia. Abracei Maria Bethânia. Na abertura do evento, emoldurados pela beleza silenciosa da Igreja de São Francisco, tive a alegria de ver, ouvir e sentir Maria Bethânia cantando, declamando e orando as belezas textuais em versos e prosas da riquíssima literatura brasileira. Após seu recital-oratório-declamativo-show, Maria Bethânia recebeu com imensa ternura muitos que buscaram seu abraço, sua voz, seu olhar ainda no camarim. Coisa linda foi quando luz faltou e Maria Bethânia serenamente entoou um canto solene para aconchegar o ambiente e seus convidados. A candura de sua voz dissipou a escuridão da noite e iluminou tudo, inté nossa alma. E ficamos inundados, mais uma vez, pelo seu sopro poético e fomos acolhidos pelo manto de sua calorosa simpatia. Aquela cena parecia um sonho. Parecia um poema de Castro Alves. Parecia um romance de Jorge Amado. Aquela voz que ouvi nos tempos de menino lá em Propriá na casa do amigo Mário Roberto, agora ecoava eternamente perto de mim, e dentro, e mais além. Atravessando meu ser. Alumiando as casas do meu coração. Viva em cores e corais. Palavras e notas musicais. Santos e poetas, clássicos e populares, poemas e canções. Tudo divinal. Magia pura, encanto sublime. Aguardei e cheguei. Abracei e disse com voz trêmula: “A senhora inspirou minha vida.” E ela, Maria Bethânia sorriu. Que mágico. Que sonho. Que alegria. Aquela noite jamais acabará... porque Maria Bethânia é poesia para toda minha vida.

Feira de Santana, 11 de setembro de 2017.


09/08/2017 / FLIPELÔ


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

RUY ESPINHEIRA FILHO

Soneto de Julho

É muito tarde para não te amar.
Tudo o que ouço é o sopro do teu nome.
O que sinto é teu corpo, que consome
- presente, ausente - o meu corpo. Luar 

em que me abraso, morro: teu olhar
ofuscando memórias, onde some
um mundo, e outro se ergue. Sede, fome
e esperança. Ah, para não te amar 

é tão tarde que tudo é já distância,
que só respiro este luar que me arde,
este sopro sem praias do teu nome, 

esta pedra em que pulsa e medra a ânsia
e esta aura, enfim, em que me envolve (é tarde!)
o que és - presente, ausente - e me consome.

Ruy Espinheira Filho
Poema publicado na Revista da Academia de Letras da Bahia, setembro de 2014, n 46.




domingo, 3 de setembro de 2017

Os sofrimentos do jovem Werther


Um livro formidável. Uma narrativa envolvente em linguagem de cartas. Um romance epistolar. Foi muito prazeroso conhecer os acontecimentos que envolvem a vida do jovem Werther e seu amor pela jovem e bela Lotte. Amor impossível, eterno tema romântico de todos os tempos e lugares. Ouvir as reflexões e diálogos sobre o suicídio entre Werther e Albert. São muitas as possibilidades de sedução que este livro apresenta. Descobrir a literatura de Ossian através das leituras de Werther, sim, pois ele é um grande leitor durante toda a narrativa. Homero, Ossian, Lessing e outras leituras citadas ao longo da narrativa. Um livro poderoso de Goethe. Um clássico não somente da literatura alemã, mas de toda a literatura universal. A solidão, o amor, a morte, a traição, o suicídio, a desilusão amorosa, a amizade e tantos outros valores e sentimentos atemporais perpassam todas as 181 páginas deste formidável e atraente livro que atravessa séculos encantando e atraindo leitores de todas as idades e paixões.



quinta-feira, 13 de julho de 2017

FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DO PELOURINHO

FLIPELÔ – FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DO PELOURINHO - BAHIA

11/08/2917 (Sexta-feira) Café Teatro Zélia Gattai (Fundação Casa de Jorge Amado / Pelourinho)

18h - A Voz Edita – Com: Cleberton Santos, Igor Fagundes e Walter César.

Confira a programação completa: http://www.flipelo.com.br

Curadoria: José Inácio Vieira de Melo 



sábado, 3 de junho de 2017

José de Alencar em Propriá


Em janeiro de 2017, durante uma visita ao Colégio Diocesano de Propriá (Sergipe), onde estudei meu curso de Magistério quando era vocacionado Marista. Visitando a biblioteca da escola com José de Alencar. Foto idealizada e realizada pelo amigo e fotógrafo Sérgio Souza. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O poeta Pinto do Monteiro


Eu comparo esta vida
A curva da letra S:
Tem uma ponta que sobe
Tem outra ponta que desce
E a volta que dá no meio

Nem todo mundo conhece.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Uma crônica de Ronaldo Correia de Brito



MEMÓRIA DE LIVROS E BIBLIOTECAS


            A lembrança mais remota que tenho de bibliotecas vem associada a caixotes e malas. Numa caixa de madeira, mamãe levou para a casa do sertão dos Inhamuns, onde nasci, o pequeno acervo de professora primária, depois de se casar com um rapaz que fora seu aluno. A preciosa carga compunha-se de algumas antologias, gramáticas, volumes de aritmética, geografia e história, e do livro que marcou profundamente minha vida: A História Sagrada, uma seleta de textos do Antigo e Novo Testamento.
            Os livros eram objetos tão raros nesse mundo sertanejo, medievalmente fora do tempo, que um parente rico incluiu entre os bens de partilha do testamento uma minúscula biblioteca de noventa volumes. Hoje, com o dinheiro apurado na venda de um único boi, das centenas que ele deixava, afora as terras e outros rebanhos, seria possível comprar dezenas de livros. Naquele tempo, os objetos de papel impresso davam respeito e distinção, criavam uma aura de sabedoria e nobreza em torno dos seus afortunados donos.
            Não falarei das bibliotecas humanas, embora não deixe de mencionar os homens e mulheres que guardavam na memória centenas de narrativas da tradição oral e costumavam contá-las para platéias deslumbradas, geralmente crianças. Plantados em suas casas, no fundo de uma oficina ou quintal, ou então viajando pelo mundo, pernoitando em engenhos e fazendas, esses guardiões da memória se assemelhavam aos personagens que em outras culturas foram responsáveis pela criação e divulgação de contos, poemas e epopéias mais tarde fixados em livros como Mahabharata, Ramayana, Epopéia de Gilgamesh, Ilíada, Odisséia e várias narrativas bíblicas.
            Falemos das bibliotecas em malas. Também essas exerciam grande fascínio sobre mim, mas deslumbravam, sobretudo, as pessoas humildes moradoras do campo. Nos dias de feira, era comum assistir-se o espetáculo de um vendedor pondo uma lona ou uma esteira de palha no chão, espalhando sobre ela dezenas de livrinhos impressos nas tipografias, em papel barato de jornal, com capas ilustradas por xilogravuras. Tratava-se dos folhetos de cordel ou versos de feira, como também eram chamados.
Para atrair compradores, o vendedor punha alguma coisa extravagante no meio dos cordéis: um tatu, uma serpente, a caveira de um jumento… Formado o círculo de curiosos, ele anunciava os títulos das obras, geralmente com um subtítulo: “Não deixe de comprar O amor de um estudante ou o poder da inteligência; O mundo pegando fogo por causa da corrupção; Vida, Tragédia e morte de Juscelino Kubistchek; O sofrimento do povo no golpe da carestia; Os homens voadores da Terra até a Lua; A filha do bandoleiro; Peleja de Serrador e Carneiro”… Depois escolhia o folheto mais instigante e começava a cantá-lo ou recitá-lo. O ator vendedor sempre possuía boa voz, movia-se com desenvoltura no pequeno palco, provocava a plateia, criava suspense, fazia rir e chorar e intuía com precisão o que as pessoas desejavam ouvir.
            Durante décadas os folhetos representaram os best-sellers das populações pobres do nordeste do Brasil. Mesmo quem não sabia ler comprava os livrinhos, pelo gosto de tê-los guardados, ou na esperança de encontrar alguém que lesse para ele. Quando um visitante chegava a uma casa modesta do interior, depois do hospedeiro descobrir que o mesmo era letrado, ia lá dentro num quarto, arrancava de debaixo da cama uma mala de madeira ou sola abarrotada de livros – a biblioteca da família analfabeta escondida como um tesouro –, trazia os folhetos para a sala e suplicava à visita que os lesse.
            Tentei compreender as motivações das pessoas que guardam livros mesmo sendo incapazes de decifrar os sinais impressos nas suas páginas. O que significam para elas? Essa adoração da gente iletrada me parece de maior valor que a dos bibliófilos letrados. Há algo de sagrado nesse culto, o mesmo que se fazia aos Mistérios, àquilo que escapa ao conhecimento e à razão e por isso se reveste de outros significados.

Ronaldo Correia de Brito - é escritor e médico, nasceu em Saboeiro, Ceará, em 2 de julho de 1951. Foi escritor residente da Universidade de Berkley (Califórnia), participou de diversos eventos internacionais, como a Feira do Livro de Bogotá, o Festival Internacional de Literatura de Buenos Aires, o Salon du Livre de Paris e a Feira do Livro de Frankfurt. Sua carreira artística envolve as mais diferentes linguagens, como literatura, teatro e música. São de sua autoria O baile do menino deus (teatro), Lua Cambará (disco), Faca (livro de contos), Galiléia (Prêmio São Paulo de Literatura), Estive lá fora (romance) e O amor das sombras (contos).






quinta-feira, 18 de maio de 2017

Meu poetinha querido

SONETO DE SEPARAÇÃO
Inglaterra , 1938

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes
Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra, setembro de 1938

O poetinha Vinicius de Moraes



terça-feira, 16 de maio de 2017

Sarau na Pedra Só - Filme


SARAU NA PEDRA SÓ - Sarau de poesia na fazenda Pedra Só, retiro do poeta José Inácio Vieira de Melo. O evento aconteceu na noite de 17 de dezembro de 2016 e reuniu vários artistas ligados à palavra poética e à música, que recitaram seus versos e cantaram suas canções, em torno de uma aconchegante fogueira.


domingo, 14 de maio de 2017

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Profundanças 2: antologia literária e fotográfica


Organizada pela poeta e professora Daniela Galdino, "Profundanças 2: antologia literária e fotográfica" reúne, em sua maioria, autoras inéditas, há também aquelas que já publicaram livro autoral. Essa antologia integra um amplo projeto de difusão literária e se soma ao primeiro volume, lançado em 2014. A intencionalidade do projeto é conferir visibilidade às produções que encenam formas sensíveis e dissidentes de autorrepresentação. O livro é resultado de uma ação colaborativa e sem fins lucrativos, portanto, ficará disponível para download gratuito por tempo indeterminado nesta página.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Chico de Assis e Jorge de Lima

Dois grandes nomes da Cultura Brasileira.

domingo, 23 de abril de 2017

Poética na incorporação: livro de Igor Fagundes


ODISSEIA DA LINGUAGEM 

Poeta, ensaísta, crítico literário, ator e professor de Filosofia, Estética e Dança no Departamento de Arte Corporal da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Igor Fagundes digere as bases de formação do pensamento ocidental e oferece em seu oitavo livro (o quarto de ensaio), Poética na incorporação, uma odisseia da linguagem. Seduzindo-se pelo canto das sereias e das musas, restitui-se como espaço privilegiado do exercício do humano, da experimentação e da resistência. Para tanto, evoca as gestualidades vocais de Maria Bethânia e a poesia escrita de José Inácio Vieira de Melo, deitando-as na encruzilhada de Exu, orixá mensageiro das travessias, e assim promove a desconstrução de estereótipos promotores de discriminação e preconceito.
Fruto de tese de doutorado em Poética pela UFRJ, o livro revela um escritor avesso ao lugar-comum a que o conceito oswaldiano de antropofagia acabou se reduzindo, e que faz da escrita, com seu formato ensaístico, um libelo ao pensamento. Em Igor Fagundes, a escrita pensa: desdobra-se para dentro e para fora de si, investigando-se. Só por isso já merece leitura e atenção. Mas vai além. Cruza mitos africanos, bíblicos e gregos para remexer nossa ontologia cultural, problematizando, por exemplo, recentes ideias de autoficção ou escritas de si. E também restaura a questão sobre o que é ser brasileiro e sobre o que significa pensar e escrever num Brasil “expatriado”, “ainda e sempre na promessa de um descobrimento”. País que “há de ser o mistério de cada voz no silêncio e pelo silêncio transatlântico de todo lugar”.
Em suas especificidades e “dentro de um só mocó”, Exu, Cristo e Hermes incorporam no palco e terreiro deste Ulisses brasileiro e pirata que Igor Fagundes se torna, colocando “Ítaca bem no meio da gira” e atravessando o mar da sofia. Mar que também é sertão (pois, mencionando Guimarães Rosa, “o sertão está em toda parte, é dentro da gente”). Fagundes leva o sertão para dentro do texto, “sempre na volta adiável”, com eternos retornos, torneios da linguagem. Daí que testa o uso das palavras, rascunha e dobra os sentidos ao escrever, deixando sempre o rastro da escrita, da incerteza.
Se a poesia de José Inácio tem como referência os cordelistas e o aboio; se a voz de (sua musa) Maria Bethânia — “cantora encruzilhada” — guarda o canto das sereias, Igor Fagundes imprime em seu texto a marca do popular, do artesanal, do mítico. E o faz sintonizado, ainda que não cite, com um dos mais enigmáticos aforismos de Oswald de Andrade: “Só podemos atender ao mundo orecular”. Amalgamando “auricular” (de ouvido) e “oracular” (de oráculo), investe no sentido da audição, na escuta como acesso ao conhecimento, descarregando o divino na histórica objetivação capitalista.
A demanda pela voz atravessa todo o livro e é sua potência. Para além do registro escritural, a voz poética desconstrói verdades e quebra hábitos de leitura. O projeto ocidental de emudecimento do poético e, por sua vez, de ensurdecimento do ouvinte-leitor é radicalmente atacado. Entre silêncios e vazios, o leitor é chamado a tomar posição e a pensar com o corpo todo sobre o já dado, o já estabelecido na cultura dos conceitos, no fetiche da ciência que despreza as religiões: “no arcaico, sábio é o poeta, o bardo, o cantor, o incorporado”. Tomado “pelo princípio enquanto princípio, pelo milagre do agora abissal”, Igor Fagundes emula Maria Bethânia e José Inácio direcionando o leitor para um grau zero da escrita, para uma fronteira onde o escrito por si só não basta. Considerando que a musa é a fonte de uma mensagem enviada apenas ao poeta e a sereia, a portadora do canto audível aos ouvidos humanos, em Poética na incorporação a linguagem é musa e a escrita é sereia que seduz e engendra o desconforto do leitor.
Labiríntico e distante das simplificações dos manuais que criam dicotomias preguiçosas para apressados, o livro orienta antigo e moderno, tradição e traição, a fim de sustentar a hesitação geradora do pensar. Na invenção do humano, cantando o ciclo da origem, do ser se dando na linguagem, as disputas pelas heranças patriarcais são substituídas pela generosidade erótica dos contatos. Em estado de poesia, vendo o mundo “pelos olhos da esfinge”, sendo o enigma, não o decifrador, Igor Fagundes reafirma a literatura como saber: da linguagem e de um ser humano retirante, itinerante, nômade.

Resenha publicada no Jornal Rascunho

Para adquirir mais livros de Igor Fagundes:



quinta-feira, 20 de abril de 2017

Damário Dacruz: oficina do Projeto OXE


Certo voo

Cada
pássaro
sabe
a rota
do retorno.

Cada
pássaro
sabe
a rota
de si.

Cada
pássaro,
na rota,
sabe-se
pássaro.

Damário Dacruz

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Manuel Bandeira: imagem, poesia e vida.


Um poeta que leio sempre. Poemas para todos os dias. Meu querido poeta pernambucano Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

"O Alienista" de Machado de Assis


Para meus queridos alunos do IFBA campus Santo Amaro. Para todos os amantes da nossa boa Literatura Brasileira. O Mestre Machado de Assis.
 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Poema de Narlan Matos



CALENDÁRIO

é preciso esquecer de março
para que abril finalmente aconteça
deitar-se sob a sombra de janeiro
para que o abismo de junho desapareça

de quem é esta face por detrás da hera?
ao longe o luar etéreo repousa leve e branco
sobre lírios de absinto e quimera

resta ainda a relva de setembro
e azaleias da tarde
e as latitudes do silêncio

não é a morte que eu busco, amiga
quando chegam tuas palavras na brisa
quando oferece-me o frescor de tua tez
e a Via-Láctea de repente renasce
calma nas rosas silvestres do prado
ou quando abres as imensas pétalas
do teu sorriso lindo e branco (um lírio?)
para a noite da minha existência

CALENDARIO

bisogna dimenticare marzo
perché finalmente arrivi aprile
sdraiarsi all’ombra di gennaio
perché l’abisso di giugno scompaia

di chi è questa faccia dietro l’edera?
lontano il chiar di luna riposa lieve e bianco
sopra gigli di assenzio e chimera

resta ancora l’erba di settembre
e azalee del pomeriggio
e le latitudini del silenzio

non è la morte che cerco, amica
quando giungono le tue parole nella brezza
quando mi offri la frescura della tua pelle
e la Via Lattea all’improvviso rinasce
calma nelle rose silvestri del prato
o quando apri i petali immensi
del tuo sorriso bello e bianco (un giglio?)
per la notte della mia esistenza

Narlan Matos - poeta brasileiro com vários livros publicados. Vive nos Estados Unidos e sua poesia já foi traduzida para vários idiomas. 

Tradutor: Giorgio Mobili




segunda-feira, 3 de abril de 2017

Poema de Roberval Pereyr



Amálgama

O exercício da mentira
assevera-nos o rosto;
petrifica-nos o busto
e engrandece-nos a ira. 

O exercício da mentira
engrandece-nos as posses;
ajoelha-nos em preces
sob o teto das igrejas. 

O exercício da mentira
faz-nos fortes barulhentos;
tece grandes pensamentos
para encher-nos de amarguras. 

O exercício da mentira
faz-nos lúcidos, divinos;
torna os animais humanos
e torna os deuses caninos. 

O exercício da mentira
(por que tamanha maldade?)
concedeu-nos - que loucura! -
o exercício da verdade. 

Roberval Pereyr

Nasceu em Antônio Cardoso (Bahia, 1953). Vive em Feira de Santana. É poeta, ensaísta e professor na UEFS. Publicou os livros de poesia: Iniciação ao estudo do um (com Antônio Brasileiro, em 1973); Cantos de sagitário, (1976); As roupas do nu (Coleção dos Novos, em 1981); Ocidentais (1987) e O súbito cenário (1996). Publicou nas revistas: Tapume, Hera e Serial. Vencedor do Prêmio da Academia de Letras da Bahia 2010.


domingo, 2 de abril de 2017

Meu poema "dedos"

Fotografia by Ricardo Prado
Sarau na Fazenda Pedra Só 2016


dedos

algum dia serei mais que poesia
recitada pelos
bares
ruas
praças
serei traça corroendo os mapas
da vida
com seus destinos traçados pelo vento

esse deus estrangulado pelos meus dedos


Cleberton Santos
Do livro "Travessia de abismos" (Editora Via Litterarum, 2015)

sábado, 1 de abril de 2017

A poesia de Helena Parente Cunha


Helena Parente Cunha (Salvador, BA, 1930). Ensaísta, poeta, contista, romancista, professora e tradutora. Em 1949, ingressa no curso de graduação em letras neolatinas da Universidade Federal da Bahia - UFBA, que conclui em 1952. Dois anos depois, ganha bolsa de estudo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior - Capes para se especializar em língua, literatura e cultura italiana em Perúgia, Itália, na Università Italiana Per Stranieri. Começa a trabalhar como tradutora em 1956, com o livro A Educação da Criança Difícil, do psicólogo italiano Dino Origlia. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1958, e, dez anos depois, publica seu primeiro livro de poemas, Corpo no Cerco. Segue carreira acadêmica na área de letras: mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, de 1969 a 1972; doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, entre 1974 e 1976; livre-docência, em 1976; e pós-doutorado novamente na UFRJ, de 1992 a 1994. Estuda na Università Degli Studi Di Firenze, na Itália, em 1978. Começa a trabalhar como professora adjunta na UFRJ no ano seguinte e torna-se titular em 1984. Ainda em 1979, publica seu primeiro livro de ensaios, Jeremias, a Palavra Poética: Uma Leitura de Cassiano Ricardo. O primeiro livro de contos, Os Provisórios, é publicado em 1980. Desenvolve desde o fim dos anos 1980 pesquisa sobre a representação feminina na literatura e a produção de escritoras brasileiras do século XIX ao início do XXI.